André Barcinski
Entre 1816 e 1831, quando esteve no Brasil, o artista francês Jean-Baptiste Debret pintou quadros mostrando ambulantes vendendo alimentos e mercadorias na rua.
Se morasse hoje em São Paulo, Debret certamente pintaria a Guarda Civil perseguindo uma carroça de pamonha, ou uma baiana chorando na calçada depois de ter seu tabuleiro de acarajé apreendido.
A perseguição da prefeitura à comida de rua é um atraso. Pior: é um desrespeito a tradições culinárias, que ajudaram a moldar a cara cosmopolita da metrópole. Tudo em nome de uma assepsia travestida de modernidade.
Qualquer cidade do mundo que preza sua história abre espaço para a comida de rua. O que seria de Nova York sem os carrinhos de "pretzel" ou de Tóquio sem o "takoyaki"? O que seria de Salvador sem as baianas do acarajé?
Acredito que cada prato funciona melhor em seu habitat natural. Ninguém pensa em comer pamonha em restaurante ou cuscuz, pé de moleque ou pastel em um lugar chique. Cada um na sua.
É preciso, primeiro, entender que essa comida não é chamada "de rua" à toa. Ela existe para ser consumida nas calçadas, de pé, no caminho para o trabalho, para a escola. Ela é parte da engrenagem do cotidiano.
Uma vez que a prefeitura compreenda isso, o próximo passo deveria ser garantir aos ambulantes o direito de trabalhar em paz e de maneira organizada.
Claro que ninguém é a favor de sujeira ou bagunça. Ambulantes que não obedeçam a normas de limpeza e higiene devem ficar longe das ruas. Mas não é possível que a solução encontrada para lidar com o problema seja expulsar todo mundo.
Acho que a comida de rua tem outra função importante, que é apresentar a diversidade gastronômica a um público amplo.
Quantas pessoas não começaram a gostar de comida baiana comendo acarajé na rua? Quantas não viraram fãs de comida chinesa provando um yakisoba de feira? A comida de rua democratiza a informação. Expulsá-la é tornar as ruas ainda mais frias e inabitáveis. É tirar o gostinho especial da cidade.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/04/2012.
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