terça-feira, 24 de abril de 2012

A Prefeitura de São Paulo pensa que o pedestre é bobo?

Leonardo Sakamoto



A campanha pela diminuição de atropelamentos não conseguiu reduzir o problema na cidade de São Paulo como deveria. A responsabilização do motorista, que levou a uma queda de 8% no número de atropelamentos (abaixo da meta inicial, de 40% a 50%), levou também à insatisfação dos proprietário de veículos. Então, Kassab preferiu culpar os pedestres nas campanhas. É necessário que quem anda a pé seja responsável no trânsito e há muita gente doida ou disciplicente por aí?

Claro. Mas transferir a culpa pelas desgraças que acontecem nas ruas para o lado mais fraco, como tem sido feito por parte dos proprietários de veículos e pela prefeitura, é o ó do borogodó.

Afinal de contas, é muito mais fácil culpar o senhor já avançado em idade que quase teve o braço decepado, hoje, ao pedir para atravessar na faixa de pedestres em uma rua em Perdizes do que fazer com que o maluco do automóvel vá devagar e espere o sujeito atravessar. Ou mesmo os dois cadáveres que surgem diariamente na cidade da união de um ser vivo com um veículo em alta velocidade.

O fato é que, com exceção de onde há semáforo, o pedestre tem preferência na faixa sobre bicicletas, motos, carros, ônibus e caminhões que circulam na via. Sempre. Quer os motoristas gostem ou não.

Uma pesquisa da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) sobre o desrespeito à faixa de pedestres, citado no blog Outras Vias, afirma que 53,2% dos condutores responsabilizaram o “pedestre distraído, que fica olhando para os lados”, 46,3% reclamam do “pedestre na calçada falando ao celular”, 29,2% dizem que o que atrapalha é “o pedestre na calçada, mas conversando com outras pessoas” e 18,3% lamentam a existência do “pedestre fumando e não observando a movimentação dos veículos”.

Mas quando a solução desagrada muita gente motorizada, a alternativa é acochambrar – verbo conjugado ad nauseam no Brasil. Varreu sujeira para baixo do tapete e ele transbordou? Sem problemas! Compre um tapete maior.

Ou seja, se os pedestres correm em alguns cruzamentos para atravessar a faixa a tempo quando percebem que o bonequinho vermelho do aviso luminoso está piscando, vamos deixar o bonequinho piscando por mais tempo. Simples! Aumentar o tempo de travessia em alguns lugares? Tá achando que a cidade pertence às pessoas? São Paulo é dos carros.

E da falta de coragem em implantar políticas públicas decentes.

E das propagandas de TV caras-de-pau.

Publicado no Blog do Sakamoto, em 24/04/2012:

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Perseguição da prefeitura à comida de rua é um atraso


André Barcinski


Entre 1816 e 1831, quando esteve no Brasil, o artista francês Jean-Baptiste Debret pintou quadros mostrando ambulantes vendendo alimentos e mercadorias na rua.

Se morasse hoje em São Paulo, Debret certamente pintaria a Guarda Civil perseguindo uma carroça de pamonha, ou uma baiana chorando na calçada depois de ter seu tabuleiro de acarajé apreendido.

A perseguição da prefeitura à comida de rua é um atraso. Pior: é um desrespeito a tradições culinárias, que ajudaram a moldar a cara cosmopolita da metrópole. Tudo em nome de uma assepsia travestida de modernidade.

Qualquer cidade do mundo que preza sua história abre espaço para a comida de rua. O que seria de Nova York sem os carrinhos de "pretzel" ou de Tóquio sem o "takoyaki"? O que seria de Salvador sem as baianas do acarajé?

Acredito que cada prato funciona melhor em seu habitat natural. Ninguém pensa em comer pamonha em restaurante ou cuscuz, pé de moleque ou pastel em um lugar chique. Cada um na sua.

É preciso, primeiro, entender que essa comida não é chamada "de rua" à toa. Ela existe para ser consumida nas calçadas, de pé, no caminho para o trabalho, para a escola. Ela é parte da engrenagem do cotidiano.

Uma vez que a prefeitura compreenda isso, o próximo passo deveria ser garantir aos ambulantes o direito de trabalhar em paz e de maneira organizada.

Claro que ninguém é a favor de sujeira ou bagunça. Ambulantes que não obedeçam a normas de limpeza e higiene devem ficar longe das ruas. Mas não é possível que a solução encontrada para lidar com o problema seja expulsar todo mundo.

Acho que a comida de rua tem outra função importante, que é apresentar a diversidade gastronômica a um público amplo.

Quantas pessoas não começaram a gostar de comida baiana comendo acarajé na rua? Quantas não viraram fãs de comida chinesa provando um yakisoba de feira? A comida de rua democratiza a informação. Expulsá-la é tornar as ruas ainda mais frias e inabitáveis. É tirar o gostinho especial da cidade.


Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/04/2012.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cultura do automóvel elimina efeito do veto a caminhões

José Luiz Portella

 
Restrições a veículos pesados não resolvem o problema de trânsito. Na av. Bandeirantes, na marginal Pinheiros, as restrições tiveram efeito por 12 meses, no máximo, 18.

O espaço livre é ocupado por veículos que faziam outros trajetos. Mais os inúmeros veículos novos que entram em circulação todo dia, o esvaziamento de caminhões é anulado.

A questão é a prioridade que se dá ao carro. E a carência de transporte público não pode ser usada como desculpa. Em Londres, Nova York e Paris, com imensas redes de metrô, o carro continua sendo um problema sério, a ponto de Londres adotar o pedágio urbano. Ou seja, não é real que, havendo transporte público em boa quantidade como nessas cidades, as pessoas deixem de usar seus carros.

Uma boa parte não o faz.

Não existe caminho fácil e com solução imediata para um problema que vem sendo gerado há anos. Além da expansão do metrô e dos corredores de ônibus, as melhores alternativas são as que diminuem as demandas de movimento de cargas e de uso de transporte público.

O transporte de cargas pode ser reduzido com planejamento logístico e o importante projeto do hidroanel de São Paulo, que pode eliminar cerca de 30% das 400 mil viagens por dia de caminhões na cidade. É um anel hidroviário formado pelos rios Tietê e Pinheiros, pelas represas Billings e Taiaçupeba e um canal entre as duas represas, circundando a cidade.

A demanda por transporte diminuirá com a combinação do adensamento populacional da região central, onde há muito emprego e poucos habitantes, como a Barra Funda, e a criação de empregos na periferia, onde há pouca oferta de trabalho.

PADRÃO

A dificuldade dessas medidas é a mudança de hábito. A quebra do "padrão carro" na cabeça de todos e dos interesses econômicos contrariados. Grande parte do lixo poderá ser transportada pelo hidroanel. Isso alteraria os contratos de coleta e transporte hoje existentes.

A política de adensamento de regiões como a Barra Funda mexe com o mundo imobiliário.

Derrubar esses velhos padrões é a grande batalha a ser vencida.

JOSÉ LUIZ PORTELLA, 58, engenheiro civil, foi secretário-executivo dos ministérios do Esporte e dos Transportes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos e secretário de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo, além de presidente da Fundação de Assistência ao Estudante

Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/03/2012.