quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A periferia agradece

Nilson Camargo
 
 
 
O "Agora São Paulo", com circulação diária se aproximando dos 100 mil exemplares, é o jornal com maior penetração nas áreas periféricas da metrópole paulistana.
Todos os dias, repórteres viajam até 80 km a um mundo completamente desconhecido do centro político-consumidor da cidade para registrar reclamações e pedidos de nossos leitores.
Graças ao árduo e dedicado trabalho dos jornalistas, as páginas do "Agora" se tornaram um dos melhores espelhos das necessidades dos cidadãos mais dependentes do poder público para tocarem a vida. Ao folhear as edições dos últimos meses, pode-se ter uma ideia dos desafios à espera do futuro prefeito.
Os grandes martírios da população que mora nas pontas da cidade são: conseguir tratamento médico com consultas e exames; ter transporte eficiente e com o mínimo de conforto para ir e voltar do trabalho; e conquistar uma vaga para o filho de até quatro anos em uma creche municipal.
No Jardim Míriam, bairro na fronteira com Diadema, idosos com mais de 70 anos, hipertensos e diabéticos, são obrigados a pegar fila, às 3h da madrugada, para agendar consulta para quatro meses depois. Em São Mateus (zona leste), a espera por atendimento de um endocrinologista é de dez meses. Faltam médicos. Faltam leitos. Faltam hospitais. Falta eficiência no gerenciamento do sistema.
Doentes que deveriam permanecer no máximo 24 horas internados em pronto-socorro passam até sete dias no PS da Cidade Tiradentes (zona leste), correndo sérios riscos de infecção. Pacientes reclamam que exames mais específicos, como o de densitometria óssea, chegam a demorar até dois anos para serem realizados.
O suplício não é menor para se ir ao trabalho. A grande maioria anda de ônibus. No Parque Residencial Cocaia, que fica na zonal sul, a 30 km da praça da Sé, paulistanos acordam às 4h da madrugada, só conseguem entrar no ônibus às 6h e chegam ao trabalho às 8h30. Na volta para casa, mais três horas espremidos.
E muitas mulheres nem isso podem. Cerca de 145 mil delas não têm quem cuide de seus filhos pequenos enquanto trabalham. As mais necessitadas e destemidas deixam suas crianças em locais improvisados, com parentes ou vizinhos. A prefeitura afirma, em plano enviado à Câmara Municipal, que só poderá atender a todas no ano de 2020.
Seria muito bom se a campanha para o segundo turno discutisse soluções não tão remotas para esses dramas da periferia. Melhor ainda, se o eleito jogasse no lixo suas inevitáveis pirotecnias eleitoreiras e adotasse medidas mais pé no chão.
A periferia agradece.
NILSON CAMARGO é o editor responsável pelo jornal "Agora São Paulo".
Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/10/2012.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Clichês paulistanos

Evandro Spinelli

Certos clichês dão ar de conhecimento e erudição ao interlocutor. Porém, muitas vezes são simples bobagens.

É comum ouvir, por exemplo, que a cidade de São Paulo tem o terceiro maior Orçamento do país. É o típico clichê dito e repetido em época de eleição. Mas não é o terceiro, é o sexto. A União e os Estados de São Paulo, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm Orçamentos maiores. São Paulo tem problemas suficientes que dispensam o espalhamento de mentiras que deem medidas de sua grandeza.

 
Outro clichê mentiroso típico de épocas de eleição é "São Paulo é uma cidade que cresceu sem planejamento". Distorções e desigualdades paulistanas não são causadas por falta de planejamento. Ao contrário, são por causa dele.

 
Bernardo José Maria de Lorena, administrador colonial português que governou a Província de São Paulo em fins do século 18, fez o que ele chamou de "um plano para guiar a cidade em seu crescimento". Isso em 1792, 220 anos atrás.

 
No fim do século 19, a cidade ganhou marcos urbanísticos importantes, como a avenida Paulista (1891) e o viaduto do Chá (1892). E, no começo do século 20, surgiu o Código Arthur Saboya, que impôs limites de altura aos prédios do chamado "centro novo", atual praça da República.

 
E, assim, a cidade vai se dispersando em vez de se adensar. Na década de 1930, chegou o plano de avenidas do prefeito Francisco Prestes Maia. Em 1927, a Câmara Municipal havia rejeitado um projeto da Light, concessionária dos serviços de bonde e de energia elétrica, de criar a primeira linha paulistana de metrô, mais ou menos no traçado da linha 4-amarela.

 
Como se vê, a cidade tinha, sim, um plano: crescer para a periferia, construir avenidas e desprezar o transporte de massa. A primeira linha de metrô só chegou na década de 1970. Cidade Tiradentes, um enorme conjunto residencial que amontoou pobres na longínqua periferia da zona leste, é da década de 1980.

 
Agora, São Paulo corre atrás do prejuízo. Um clichê (este verdadeiro) diz que o maior movimento de massa da história da humanidade ocorre todos os dias na zona leste de São Paulo: 3 milhões de pessoas (um Uruguai inteiro) vão para o centro de metrô pela manhã e voltam à noite, esmagados nos vagões da linha 3-vermelha do metrô.

 
Também virou clichê dizer que precisa ter mais moradia no centro e mais emprego na periferia. Pode ser. Mas basta? A pesquisa DNA Paulistano, do Datafolha, mostra que 67% dos moradores da zona leste trabalham na própria zona leste. Proporcionalmente, é mais do que no centro, onde 62% não precisam sair da região para trabalhar.

 
Parece tarde para São Paulo. Mas, para não fugir de clichês, antes tarde do que nunca.
 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 29/09/2012.