Folha de S.Paulo, em 27/07/2012.
terça-feira, 31 de julho de 2012
sexta-feira, 27 de julho de 2012
O que pode levar a uma cidade sustentável?
Washington Novaes
Pois não é que, enquanto o eleitor se pergunta, aflito, em quem votar para resolver os dramáticos problemas das nossas insustentáveis grandes cidades, um pequeno país de 450 mil habitantes - a África Equatorial - anuncia (Estado, 10/6) que até 2025 terá construído uma nova capital "inteiramente sustentável" de 40 mil casas para 140 mil habitantes, toda ela só com "energias renováveis", principalmente a fotovoltaica? Mas como afastar as dúvidas do eleitor brasileiro que pergunta por que se vai eliminar uma "florestal equatorial" - tão útil nestes tempos de problemas climáticos - e substituí-la por áreas urbanas?
Bem ou mal, o tema das "cidades sustentáveis" entra na nossa pauta. Com Pernambuco, por exemplo, planejando todo um bairro exemplar em matéria de água, esgotos, lixo, energia, telecomunicações, em torno do estádio onde haverá jogos da Copa de 2014, inspirado em Yokohama (Valor, 24/6), conhecida como "a primeira cidade inteligente do Japão". E até já se noticia (12/7) que o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking de "construções sustentáveis" no mundo, depois de Estados Unidos, China e Emirados Árabes - já temos 52 certificadas e 474 "em busca do selo", por gastarem 30% menos de energia, 50% menos de água (com reutilização), reduzirem e reciclarem resíduos, além de só utilizarem madeira certificada e empregarem aquecedores solares.
"As cidades também morrem", afirma o professor da USP João Sette Whitaker Ferreira (Eco 21, junho de 2012), ressaltando que, enquanto há 50 anos se alardeava que "São Paulo não pode parar", hoje se afirma que a cidade "não pode morrer" - mas tudo se faz para a "morte anunciada", ao mesmo tempo que o modelo se reproduz pelo País todo. Abrem-se na capital paulista mais pistas para 800 novos automóveis por dia, quem depende de coletivos gasta quatro horas diárias nos deslocamentos, os bairros desfiguram-se, shoppings e condomínios fechados avançam nos poucos espaços ainda disponíveis, 4 milhões de pessoas moram em favelas na região metropolitana.
Não é um problema só brasileiro. Em 1800, 3% da população mundial vivia em cidades, hoje estamos perto de 500 cidades com mais de 1 milhão de pessoas cada uma, quase 1 bilhão vive em favelas. Aqui, com perto de 85% da população em áreas urbanas, 50,5 milhões, segundo o IBGE, vivem em moradias sem árvores no entorno (26/5), seis em dez residências estão em quarteirões sem bueiros, esgotos correm na porta das casas de 18,6 milhões de pessoas. Quase metade do solo da cidade de São Paulo está impermeabilizada, as variações de temperatura entre uma região e outra da cidade podem ser superiores a 10 graus (26/3).
Estamos muito atrasados. Na Europa, 186 cidades proibiram o trânsito ou criaram áreas de restrição a veículos com alto teor de emissão (26/2), com destaque para a Alemanha. Ali, em um ano o nível de poluição do ar baixou 12%. Londres, Estocolmo, Roma, Amsterdam seguem no mesmo rumo, criando limite de 50 microgramas de material particulado por metro cúbico de ar, obedecendo à proposta da Organização Mundial de Saúde. No Brasil o limite é três vezes maior.
E há novos problemas claros ou no horizonte, contra os quais já tomaram posição cidades como Pyongyang, que não permite a ocupação de espaços públicos urbanos por cartazes, grafites, propaganda na fachada de lojas, anúncios em néon (New Scientist, 19/5). É uma nova e imensa ameaça nos grandes centros urbanos, atopetados por informações gráficas e digitais projetadas. Quem as deterá? Com que armas, se as maiores fabricantes de equipamentos digitais lançam a cada dia novos geradores de "realidade ampliada", a partir de fotos, vídeos e teatralizações projetados? O próprio interior das casas começa a ser tomado por telas gigantescas.
Um bom ponto de partida para discussões sobre as áreas urbanas e seus problemas pode ser o recém-editado livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes" (Brookman, 2012), em que o professor Carlos Leite (USP, Universidade Presbiteriana Mackenzie) e a professora Juliana Marques Awad argumentam que "a cidade sustentável é possível", pode ser reinventada. Mas seria "ingênuo pensar que as inovações tecnológicas do século 21 propiciarão maior inclusão social e cidades mais democráticas, por si sós". A s cidades - que se tornaram "a maior pauta do planeta" - "terão de se reinventar", quando nada porque já respondem por dois terços do consumo de energia e 75% da geração de resíduos e contribuem decisivamente para o processo de esgotamento de recursos hídricos, com um consumo médio insustentável de 200 litros diários por habitante. "Cidades sustentáveis são cidades compactas", dizem os autores, que estudam vários casos, entre eles os de Montreal, Barcelona e São Francisco. E propõem vários caminhos, com intervenções que conduzam à regulação das cidades e à reestruturação produtiva, capazes de levar à sustentabilidade urbana.
Mas cabe repetir o que têm dito vários pensadores: é preciso mudar o olhar; nossas políticas urbanas se tornaram muito "grandes", distantes dos problemas do cotidiano do cidadão comum; ao mesmo tempo, muito circunscritas, são incapazes de formular macropolíticas coordenadas que enfrentem os megaproblemas. No caso paulistano, por exemplo, é preciso ter uma política ampla e coordenadora das questões que abranjam toda a região metropolitana; mas é preciso descentralizar a execução e colocá-la sob a guarda das comunidades regionais/locais. Não custa lembrar que há alguns anos um grupo de professores da Universidade de São Paulo preparou um plano para a capital paulista que previa a formação de conselhos regionais e subprefeituras, com a participação e decisão de conselhos da comunidade até sobre o orçamento; mas as discussões na Câmara Municipal levaram a esquecer o macroplano e ficar só com a criação de novos cargos.
Por aí não se vai a lugar nenhum - a não ser a problemas mais dramáticos.
E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR
Publicado em O Estado de S.Paulo, em 27/07/2012.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Fora das ruas e em lugar nenhum
Raquel Rolnik, Bruno Miragaia e Juliana Avanci
As ruas
de São Paulo começaram a ser utilizadas para comércio ambulante a partir da
transição do trabalho escravo para o trabalho livre, nos idos de 1850.
A
primeira norma municipal de regulação da atividade foi a lei 292/1969, sobre
"o modo de fiscalizar os mercadores ambulantes".
Tal
atividade resistiu por mais de um século a todos os ciclos econômicos --e
atravessou o tempo adquirindo características próprias até o cenário atual, que
consolidou como referências nacionais redutos de comércio popular em bairros
paulistanos, como o Brás, 25 de março, República, Sé, entre outros.
Os Termos
de Permissão de Uso foram concedidos em São Paulo desde 1965 para ambulantes de
plantas ornamentais e estendidos como reserva de mercado aos deficientes
físicos em 1986. A primeira tentativa de extinção dos ambulantes na cidade foi
tomada por Ademar de Barros em 1960 --que se viu obrigado a recuar da decisão,
por pressão social.
Essa
política regulatória busca propiciar o desenvolvimento urbano e econômico
local, criando oportunidades para geração de trabalho e renda, em especial aos
trabalhadores mais vulneráveis, como idosos, deficientes e pessoas com baixa
escolaridade, que têm menores chances de obter rendimentos de outra forma.
Desde
2009, a Prefeitura de São Paulo intensificou a (des)política de extinguir o
comércio ambulante existente há décadas na cidade.
Sem
qualquer planejamento de oferta de outras oportunidades e nenhum debate
público, os pontos de comércio são extintos e os ambulantes removidos. O
prefeito anuncia, às vésperas do fim do mandato, a construção de shoppings
populares nas periferias, sem demonstrar qualquer previsão orçamentária,
terrenos disponíveis ou mesmo projetos e estudos dos locais. Tampouco há
qualquer participação popular na tomada dessas decisões.
Diante do risco à ordem socioeconômica, a
Justiça determinou no dia 4 de junho a paralisação das remoções, tendo como
fundamento:
- Falta de participação popular;
- Indícios de que a Constituição e as leis
foram ignoradas;
- Que a decisão do prefeito é
desproporcional e desarrazoada;
- Ausência do devido planejamento urbano;
- Indícios de ilegalidade quanto ao
direito de defesa;
- Ilegalidade por falta de prévia oitiva
das comissões permanentes de ambulantes, entre outros.
Essa decisão foi confirmada em 27 de julho
por 22 dos 25 desembargadores do Órgão Especial do Tribunal de Justiça.
Isso demonstra que a manutenção dos
ambulantes legalizados há décadas na cidade se mostra indispensável até que o
município apresente uma alternativa concreta, urbanística,
socialmente defensável e aberta ao debate público, ainda que com reassentamento alternativo. Isso irá evitar o rompimento da atividade comercial, desemprego, miséria e marginalização.
socialmente defensável e aberta ao debate público, ainda que com reassentamento alternativo. Isso irá evitar o rompimento da atividade comercial, desemprego, miséria e marginalização.
Como bem afirmado pelos desembargadores do
Tribunal de Justiça de São Paulo, a cidade de São Paulo ainda é uma
"Berlíndia" (uma mistura de Bélgica com Índia), o que exige que a
Justiça garanta o direito de todos, em especial dos mais vulneráveis, a uma
cidade justa e, de fato, heterogênea.
RAQUEL ROLNIK, 55, é
urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, BRUNO
MIRAGAIA, 33, é defensor público de São Paulo e JULIANA AVANCI, 30,
é advogada do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Publicado na Folha de S.Paulo, em
24/07/2012.
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